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Hackathon Codesinfo reúne jornalistas para prototipar soluções com IA e fortalecer ecossistema de inovação nas redaçõesUncategorizedHackathon Codesinfo reúne jornalistas para prototipar soluções com IA e fortalecer ecossistema de inovação nas redações

Hackathon Codesinfo reúne jornalistas para prototipar soluções com IA e fortalecer ecossistema de inovação nas redações

Jornalistas e profissionais de diferentes organizações participaram, no dia 30 de janeiro, em São Paulo, do Hackathon Codesinfo, iniciativa do Projor (Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo) em parceria com a Google News Initiative. O encontro promoveu um dia intensivo de formação prática, troca entre redações e desenvolvimento de protótipos com foco no uso de inteligência artificial aplicada ao jornalismo. Integrante da edição 2025 do Codesinfo (Fundo de Inovação para o Jornalismo), o evento teve como objetivo transformar ideias submetidas ao programa em soluções viáveis para desafios reais das redações, com apoio de mentoria especializada e uso orientado de ferramentas.

De acordo com Sérgio Lüdtke, presidente do Projor, o Codesinfo seleciona e financia projetos de inovação, e o hackathon amplia as oportunidades para que mais propostas avancem. “O Codesinfo 2025 selecionou e está financiando projetos de inovação em inteligência artificial. No hackathon, criamos uma oportunidade também para que ideias apresentadas ao programa, as que não foram selecionadas para financiamento, possam ser desenvolvidas e prototipadas”, afirma. Para Lüdtke, a proposta também passa por aproximar jornalistas de aplicações práticas da tecnologia. “A ideia é desmistificar um pouco, fazer com que os jornalistas se aproximem mais desse universo e chegar em produtos a partir da inteligência artificial”, comentou.

Ao longo do evento, um dos pontos debatidos foi a necessidade de ir além de usos mais limitados da tecnologia. “As soluções que a IA oferece são infinitas, mas às vezes as coisas se encerram no chatbot”, observou Lüdtke. Ele também ressaltou a urgência de o jornalismo responder com agilidade, sem abrir mão do rigor. “É muito importante que o jornalismo esteja atento às possibilidades e que possa dar respostas muito rápidas, porque se nós formos lentos talvez a gente possa ser substituído mesmo.” Para ele, as ferramentas podem contribuir para produtividade e investigação, desde que utilizadas com responsabilidade. “Desde que nós façamos com cuidado, com responsabilidade e com precisão, nós vamos ter um ganho para o público também”, afirmou.

A programação foi dividida em dois momentos principais. Pela manhã,os participantes acompanharam uma conversa sobre tendências de IA no jornalismo, seguida da apresentação de casos apoiados pelo Codesinfo, entre eles o projeto Check-Up (Aos Fatos), além de um panorama de outras iniciativas financiadas. Na sequência, ocorreu um laboratório com demonstrações e conceitos voltados à aplicação direta em projetos jornalísticos, incluindo ferramentas como NotebookLM e Lovable, além de recursos de apoio à experimentação.

No período da tarde, o foco foi a prototipagem. Os profissionais trabalharam no desenvolvimento de storyboards, fluxos, telas, mockups e cadeias de prompts, com mentoria circulante, revisão de dúvidas e apresentações finais, seguidas de feedback e encaminhamento de próximos passos.

A coordenação técnica do hackathon foi liderada pelo jornalista Pedro Burgos, professor do Insper, membro do Projor e fundador da Co.Inteligência, consultoria especializada em inteligência artificial. Para Burgos, o diferencial do encontro está no uso da IA para acelerar a passagem da ideia ao protótipo. “Nesse hackathon, o que estamos fazendo é usar a inteligência artificial para acelerar a prototipação e o desenvolvimento de projetos ou produtos jornalísticos, tratando a IA como se fosse um ‘engenheiro experiente’, uma ‘desenvolvedora’, para ajudar a tirar ideias do papel”, afirmou. Ele também destacou que, além do formato de pergunta e resposta, a IA pode executar tarefas e apoiar testes. “As pessoas estão vendo como a IA não só traz respostas, mas pode agir como agentes que criam programas e ajudam a testar soluções.”

Encontro, diversidade regional e desafios comuns

A programação também reforçou a dimensão de rede e colaboração entre profissionais de diferentes regiões. Para Thaís Reis Oliveira, da CartaCapital, o encontro amplia repertórios e aproxima iniciativas que muitas vezes ficam fora do radar. “É sempre bom conhecer novos jornalistas, conhecer iniciativas inovadoras de outros cantos do país, essa diversidade regional é uma das coisas mais importantes”, afirmou, destacando ainda a oportunidade de dialogar com colegas que enfrentam desafios semelhantes nas redações.

Segundo Thaís, a redação da revista tem realizado experimentos práticos com inteligência artificial, com foco em qualificar o trabalho jornalístico. Entre as iniciativas está a apresentada na edição de 2025 do Codesinfo, a ferramenta que ela prototipou no hackathon para conectar a IA ao acervo impresso da revista. “A ideia é ligar a inteligência artificial ao acervo das nossas edições impressas de mais de 30 anos, conectando a IA a uma dor que a gente tem, que é a memória histórica do veículo”, contou.

Representando o Nós, Mulheres da Periferia, veículo de mídia periférica de Salvador voltado às intersecções de gênero, raça e território, Laís dos Santos destacou a importância da troca entre organizações com desafios semelhantes e do contato com novas ferramentas para ampliar possibilidades nas redações. No hackathon, ela partiu de um protótipo baseado no manual de redação do veículo, pensado para otimizar processos de revisão e evitar a reprodução de estigmas sobre territórios e grupos historicamente marginalizados, mas a proposta evoluiu ao longo do evento, dando origem a uma nova ferramenta, desenvolvida a partir das trocas e aprendizados coletivos. As discussões ampliaram as ideias iniciais e abriram caminhos para aplicações colaborativas, voltadas ao enfrentamento da desinformação. “Responsabilidade no uso da IA não significa medo, significa método. A tecnologia pode e deve ser nossa aliada, desde que usada com supervisão humana, pensamento crítico e atenção permanente aos vieses, especialmente quando falamos de territórios e grupos historicamente marginalizados”, ressaltou.

Na mesma linha, a responsabilidade no uso da inteligência artificial também foi enfatizada por Marcela Duarte, jornalista do Aos Fatos, que reforçou a necessidade de equilibrar inovação e critérios editoriais. “Falar de responsabilidade não significa que a gente deve ter medo. Hoje, o medo nos ajuda a usar a IA de uma forma muito crítica, e é isso que eu gostaria de incentivar em outras organizações e redações: que usem a IA de uma forma muito responsável”, afirmou. Segundo ela, a tecnologia deve ser encarada como aliada, desde que utilizada com acompanhamento constante. “Nós recomendamos, é uma premissa do Aos Fatos, o uso de IA sempre supervisionada por um humano, porque a IA ainda alucina, comete erros. A segunda parte é desenvolver um pensamento crítico sempre. Não devemos temer a IA, ela deve ser nossa aliada, mas devemos ter um uso crítico da IA”, destacou.

Durante o laboratório e a etapa prática, um tema recorrente foi a importância de formular pedidos claros e ajustar até chegar ao resultado desejado, habilidade considerada central para transformar ferramentas de IA em soluções concretas. Para Frattz, embaixador do Lovable e cofundador da Naches, “a IA funciona muito bem quando você sabe detalhar seu pensamento: ‘eu quero isso por causa disso; eu não quero aquilo’. É preciso entrar no flow da troca, pedir, revisar, ajustar, para chegar no que é essencial e assertivo”, destacou.

A expectativa do Codesinfo é que os protótipos desenvolvidos avancem em maturidade e possam evoluir para aplicações concretas nas rotinas das redações, ampliando o uso prático da inteligência artificial no jornalismo. “Estamos fortalecendo um ecossistema de inovação jornalística no Brasil, em que as redações não apenas adotam tecnologia, mas também a desenvolvem de forma colaborativa e aberta. Essas soluções têm o potencial de ser replicadas por outras organizações, ampliando o impacto do jornalismo de qualidade”, disse Lüdtke.